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Quinta-feira, Março 02, 2006
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Crônicas Surreais pt 1: "There's someone in my head"
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Lá estava eu, caro leitor, à caça das idéias perdidas, dentro da minha própria mente. Um ambiente completamente escuro, sem paredes, ou árvore, ou céu, ou sons, ou ecos. Bem, na verdade eu só tenho ceretza de que o chão estava lá porque eu podia pisar nele.E só tinha certeza que eu estava lá porque... bom, essa certeza eu não tenho. Essas coisas de presença onírica me confudem. Bem, voltando à minha narrativa, eu estava lá, e havia algo perto, ou pelo menos eu achava que havia. Seria uma idéia? Ou seria apenas a minha imaginação? Na dúvida, comecei a correr como se minha vida dependesse disso(e talvez dependesse mesmo) até que cheguei a um parque de diversões. Quer dizer, eu acho que era um parque de diversões, mas não tinha barracas, ou brinquedos, ou pessoas, ou... bem, acho que você, leitor, já entendeu o espírito da coisa. Na verdade, eu só tive a impressão de ser um parque graças às milhares de luzes flutuantes e multicoloridas. Luzes no formato de montanhas russas, e rodas giantes, barracas, etc. Eu me senti no "Mundo das idéias" de Platão, mas ao contrário. As idéias(o interessante é que eram mesmo idéias) eram apenas a sombra, ou luz, da realidade. Foi nesse momento que entendi onde estava, num lugar obscuro entre as minha memórias infantis. Cheguei ali acidentalmente, enquanto caçava idéias. Lembranças se tornam idéias, então aquele era um bom lugar para procurá-las. Ouvi então um rugido, muito forte. Virei-me e me deparei com um leão, dos grandes, talvez ele que estivesse por perto quando comecei a correr. Rapidamente cheguei à conclusão que ele era resultado de um passeio ao Simba Safari, alguns circos e muitas sessões de "Rei Leão"(o leão realmente se parecia com o Scar). Acho que eu já expliquei sobre como lembranças viram idéias né? Ele rugiu de novo e me encarou, e eu acabei encarando de volta. Avisei a ele que aquela era minha mente, e que estava caçando idéias ali, logo, eu deveria caçá-lo. Ele me desafiou para jogar Jo-Ken-Pô, pelo direito de caçar o outro. Aceitei. Eu pus pedra, e ele papel. Leões sempre foram malandros, e exímios jogadores de Jo-Ken-Pô. Novamente eu estava correndo pela minha mente, como se minha vida dependesse disso. E dessa vez ela realmente dependia. Correndo, pude ver, bem longe, milhares de balões coloridos. Balões de lógica. A lógica poderia me salvar naquele momento. Pulei, agarrei um dos balões e apertei-o até que estourasse. Inalei então os gases lógicos, que tinham um cheiro que lembrava muito algodão-doce. A solução brotou na minha cabeça: o leão é imaginário, criado por MIM, logo eu tenho poder sobre ele. Parei, virei-me e encarei a besta. Descobri de uma maneira bem ruim, que lógica não combina muito com psicologia. O leão estava em cima de mim, bem pesado para um leão imaginário, pronto pra me matar, quando resolvo desafiá-lo a uma nova partida de Jo-Ken-Pô. Ele começou a analisar se isso podia ser feito, avaliando seus códigos de honra. Enquanto isso, eu vou correndo pela terceira vez. E eu odeio correr. Eis que percebo que corri demais. Cheguei ao abismo do Esquecimento, um lugar maldito na minha mente. O lugar para onde vão as lembranças ruins, as fórmulas de Física, a localização das chaves de casa e os nomes dos parentes. Ou seja, nada que caísse ali poderia ser lembrado depois. Estava encurralado pelo leão. Cair ali seria me condenar à eterna amnésia, ficar seria ser devorado por uma lembrança infantil, um fim assaz patético. Resolvi então pular. O leão, bem mais sábio do que eu, achou minha atitude completamente idiota e foi embora. Eu estava "quase conformado" com o meu fim. Quase conformado porque os gritos de desespero que saíam da minha boca não deixavam eu me concentrar o suficiente para me conformar. Mas então, o milagre aconteceu. Fui salvo por um ser estranho, que cheirava terrivelmente à peixe. Esse ser me agarrou (apesar de não ter braços, só barbatanas) e me levou voando pelo céu, iluminado pela luz da lua. Tomei coragem e perguntei: - O que raios é você?- e a resposta veio numa voz rouca, mas agradável. - Sou uma barracuda. Essa tinha sido uma resposta um tanto estranha, mas eu me controlei e perguntei, como quem não quer nada: - E pra onde estamos indo? - Para os campos de Tomilho.
enviado por Pedro "Dr. Estranho" as 12:36 AM
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